Análise da obraHISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA - José saramago

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Exercícios

Questão 01

  Leia o fragmento abaixo, retirado do livro “História do Cerco de Lisboa”, de José Saramago.


“Há dois minutos que Raimundo Silva olha, de um modo tão fixo que parece vago, a página onde se encontram consignados estes inabaláveis factos da História,

(...)

Está como fascinado, lê, relê, torna a ler a mesma linha, esta que de cada vez redondamente afirma que os cruzados auxiliarão os portugueses a tomar Lisboa. Quis o acaso, ou foi antes a fatalidade, que estas unívocas palavras ficassem reunidas numa linha só, assim se apresentando com a força duma legenda, são como um dístico, uma inapelável sentença, mas são também como uma provocação, como se estivessem a dizer ironicamente, Faz de mim outra coisa, se és capaz...”


  O fragmento acima apresenta o início de um momento crucial da narrativa, quando o revisor, Raimundo Silva, toma uma atitude que vai mudar completamente a sua vida. Posto isso, responda:

A)  Qual foi a ação de Raimundo considerando a frase final do fragmento (faz de mim outra coisa, se és capaz)?

B)   Que mudanças essa ação trará para a vida do revisor Raimundo Silva?




Questão 02


O texto a seguir é um fragmento de uma conversa telefônica entre Raimundo Silva e Maria Sara – mais precisamente, o momento em que os dois se declaram apaixonados um pelo outro pela primeira vez. Considerando a peculiaridade dos recursos expressivos empregados por Saramago na construção do diálogo, cite dois efeitos de sentido alcançados pelo autor no trecho.

  

  Agora sou eu que lhe peço, por favor, não use palavras inúteis, Calo-me, Então ouça, telefonei-lhe porque me sentia só, porque tive curiosidade de saber se estava a trabalhar, porque queria que me desejasse as melhoras, porque, Maria Sara, Não diga o meu nome assim, Maria Sara, eu gosto de si, pausa longa, Isso é verdade, É verdade, Levou tempo a dizer-mo, E talvez nunca lho dissesse, Porquê, Somos diferentes, pertencemos a mundos diferentes, Que é que sabe dessas diferenças todas, nossas e dos mundos, Imagino, vejo, concluo, Essas três operações tanto podem levar à verdade como conduzir ao erro, Admito-o, e o erro maior, neste momento, terá sido dizer-lhe que gosto de si, Porquê, Nada conheço da sua vida particular, se é, Casada, Sim, ou, De qualquer maneira comprometida, como antigamente se dizia, Sim, Imaginemos que sou realmente casada, ou que tenho um compromisso, impedi-lo-ia isso de gostar de mim, Não, E se eu fosse realmente casada, ou tivesse um outro compromisso, impedir-me-ia isso de gostar de si, se tal tivesse de acontecer, Não sei, Então tome nota de que gosto de si, pausa longa, Isso é verdade, É verdade [...]

                          SARAMAGO, José. História do cerco de Lisboa. Rio de Janeiro/ São Paulo: O Globo/Folha de S.Paulo, 2003. p. 215-216.




Questão 03


Considerando a distinção proposta por José Saramago, na entrevista a seguir, entre “olhar”, “ver” e “reparar”, estabeleça uma relação entre as definições apresentadas por ele e as ações de Raimundo Silva frente ao episódio histórico do cerco de Lisboa, da forma como essas ações se organizam no desenvolvimento da trama do romance.

  Eu sei que já se viu tudo muitas vezes, na vida, mas a verdade é que as coisas que vejo continuam a surpreender-me. Neste livro, na História do cerco de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é a mera função; ver, que é um olhar atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado fenômeno – passamos a reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado. E isso faz o tal olhar não habituado.

                          VIEGAS, Francisco José. Olho as coisas pela primeira vez. Ler, Lisboa, n. 6, 1989. Entrevista.




Questão 04

(UFRGS-RS) Instrução: A questão diz respeito ao romance História do cerco de Lisboa, de José Saramago.

Considere as seguintes afirmações.

I.                         Maria Sara apaixona-se imediatamente por Raimundo Silva, ao ouvi-lo relatar a batalha ocorrida durante o cerco a Lisboa.

II.                      II. O soldado Mogueime representa as camadas populares, por isso sua força moral é ressaltada no romance.

III.                    III. A narrativa evidencia a valentia dos comandantes em batalha, o que explica o orgulho da nação portuguesa pela vitória.

Quais estão corretas?

A)  Apenas I.

B)   Apenas II.

C)  Apenas III.

D)  Apesar II e III.

E)   I, II e III.


Questão 05

(UFRGS-RS) No bloco superior, estão listados dois períodos de tempo presentes no romance História do cerco de Lisboa, de José Saramago; no inferior, episódios do romance.


Associe adequadamente o bloco inferior ao superior.

1 – Século XX: o presente

2 – Século XII: o passado

( ) História de amor entre Raimundo e Maria Sara.

( ) História de amor entre Mogueime e Ouroana.

( ) Trabalho de revisão de textos.

( ) Confronto entre portugueses e mouros.

( ) Escrita de um livro sobre a história portuguesa.


A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é

A)  2 – 1 – 1 – 1 – 2.

B)   2 – 2 – 1 – 2 – 1.

C)  1 – 1 – 2 – 1 – 2.

D)  1 – 2 – 1 – 2 – 1.

E)   1 – 2 – 2 – 2 – 1.


Questão 06

(Unisc-RS)

   Que disparate, que disparate, e como se precisasse de confirmar a radical opinião, tornou a pegar na folha de papel, graças ao que podemos nós, agora, que antes havíamos chegado a duvidar, certificar-nos de que não há tal disparate, ali se diz mui explicadamente que os cruzados auxiliarão os portugueses a tomar Lisboa, e a prova de que assim foi que aconteceu iríamos encontrá-la nas páginas seguintes, lá onde se descreve o cerco, o assalto às muralhas, o combate nas ruas e nas casas, a mortandade excessiva, o saque, Por favor, diga-nos o senhor revisor onde está aí o disparate, esse erro que nos escapa, é natural, não beneficiamos da sua grande experiência, às vezes olhamos e não vemos, [...] é evidente que acabou de tomar uma decisão, e que má ela foi, com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa [...].

                        SARAMAGO, José. História do cerco de Lisboa. Rio de Janeiro/ São Paulo: O Globo/Folha de S.Paulo, 2003. p. 43-44.


A)  O narrador descreve a ação do personagem – o revisor – em terceira pessoa.

B)   A ação principal narrada no fragmento – acrescentar uma palavra ao texto – foi praticada pelo próprio narrador.

C)  O termo “nós” não tem relação com a instância do narrador, que não pode participar da ação que narra.

D)  O revisor é o personagem e conta sua história em terceira pessoa.

E)   A partir das expressões verbais, é possível afirmar que a situação está localizada em um passado distante do momento da narração.


Questão 07

Unicamp-2019


(...) Recordo-lhe que os revisores são gente sóbria, já viram muito de literatura e vida, O meu livro recordo-lhe eu, é de história, Assim realmente o designariam segundo a classificação tradicional dos géneros, porém, não sendo propósito meu apontar outras contradições, em minha discreta opinião, senhor doutor, tudo quanto não for vida, é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender,

(José Saramago, História do Cerco de Lisboa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.12.)

(...) O que você quer dizer, por outras palavras, é que a literatura já existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser já o era. Parece-me um ponto de vista bastante original, Não o creia, senhor doutor, o rei Salomão, que há muito tempo viveu, já então afirmava que não havia nada de novo debaixo da rosa do sol.

(Idem, p.13.)

(...) Então o senhor doutor acha que a história e a vida real, Acho, sim, Que a história foi vida, real, quero dizer, Não tenho a menor dúvida, Que seria de nós se não existisse o deleatur, suspirou o revisor.

(Idem, p.14.)

a) Nos excertos acima, revisor e autor discutem uma questão decisiva para a escrita do romance de José Saramago. Identifique essa questão, presente no diálogo entre as duas personagens, e explique sua importância para o conjunto da narrativa.


b) No terceiro excerto, o revisor utiliza a palavra deleatur. O que significa essa expressão e por que ela é tão importante para o revisor?




Questão 08

Unicamp 2020

Ao descrever a rotina do protagonista Raimundo Silva, o narrador da História do Cerco de Lisboa afirma que só restaram fragmentos dos sonhos noturnos, “imagens insensatas aonde a luz não chega, indevassáveis até para os narradores, que as pessoas mal informadas acreditam terem todos os direitos e disporem de todas as chaves.”

(José Saramago, História do Cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.122.)


Com base nesse excerto e relacionando-o ao conjunto do romance, é correto afirmar que o narrador é


a) polifônico, pois, ao considerar todos os pontos de vista das personagens, relativiza a visão de mundo e respeita a privacidade delas.

b) observador, pois dissimula sua avaliação política da realidade ao se mostrar empático ao mundo das personagens.

c) protagonista, pois, ao fazer parte da própria narrativa, assemelha-se às demais personagens e não pode duvidar dos protocolos necessários para contar a história de Portugal.

d) onisciente, pois simula ser tolerante com a pluralidade de vozes narrativas, mas é a singularidade de seu modo de narrar que produz a coesão e a autonomia da narração.