RELATO DE UM CERTO ORIENTE- Análise completa da obra

Veja a análise completa da obra e faça os exercícios de aprofundamento

Exercícios

Questão 01

 

Escritores de uma nova geração, Milton Hatoum (nascido em 1952) e Bernardo Carvalho (nascido em 1960) já garantiram seu lugar no panorama multifacetado da literatura brasileira contemporânea. Relato de um certo oriente, publicado em 1989, marcou a estreia de Milton Hatoum na literatura. Nove noites, publicado em 2002, é o sétimo livro lançado por Bernardo Carvalho, que estreou na literatura em 1993 com o livro de contos Aberração.

 

A respeito das comparações entre Relato de um certo oriente e Nove noites, considere as seguintes afirmativas:

 

1. Milton Hatoum consegue trazer para a sua ficção o espaço amazonense sem cair no exagero do exotismo; Bernardo Carvalho, por sua vez, tensiona o realismo pela inclusão, na ficção, de fatos e personagens históricos, autobiografia e experiências pessoais.

 

2. Através de estratégias diferentes, os dois romances buscam compreender o passado, conscientes da obrigação histórica de recuperá-lo tal como aconteceu: Relato de um certo oriente resgata a memória trágica de uma família que viveu em Manaus; Nove noites investiga a morte de um antropólogo no sul do Maranhão, para entregar ao leitor a solução de um mistério até então não resolvido.

 

3. A epígrafe de W.H. Auden – “Que a memória refaça/A praia e os passos/O rosto e o ponto do encontro” (em tradução de Sandra Stroparo e Caetano Galindo) – anuncia o elemento central da narrativa de Milton Hatoum. O título do romance de Bernardo Carvalho se refere às nove noites que o antropólogo Buell Quain passou na companhia de Manoel Perna, durante a sua estada entre os índios Krahô.

 

4. O tratamento dado aos nativos em Relato de um certo oriente pode ser verificado na humilhação e nos abusos sofridos pelas caboclas e índias que trabalhavam na casa de Emilie, principalmente por parte dos dois “inomináveis”. Em Nove noites, a narração do jornalista volta a momentos centrais da história do Brasil no século XX – Estado Novo, Ditadura Militar e Período Democrático –, marcando a situação de vulnerabilidade permanente dos índios num mundo de brancos.

 

5. Na Manaus multicultural da primeira metade do século XX, Emilie e seus filhos, com a curiosidade natural do imigrante, atravessam constantemente o rio que separa a cidade da floresta. Da mesma forma, o narrador-jornalista de Nove noites visita inúmeras vezes os índios Krahô, em busca de informações sobre o suicídio de Buell Quain.

 

Assinale a alternativa correta.

 

A)  Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.

B)   Somente as afirmativas 2 e 5 são verdadeiras.

C)   Somente as afirmativas 1, 3 e 4 são verdadeiras.

D)  Somente as afirmativas 2, 3 e 5 são verdadeiras.

E)   As afirmativas 1, 2, 3, 4 e 5 são verdadeiras.

 



Questão 02

UDESC

Texto 1

Ela falava de um som grave e harmônico que parecia vir de algum lugar situado entre o céu e a terra para em seguida expandir-se na atmosfera como o calor da caridade que emana do Eterno e de seu Verbo. E comparava a sucessão de sons às mil vozes secretas das badaladas de um sino que acalmam as noites de agonia e despertam os fiéis para conduzi-los ao pé do altar, onde o arrependimento, a inocência e a infelicidade são evocados através do silêncio e da meditação. Talvez por isso Emilie parava de viver cada vez que o eco quase imperceptível das badaladas da igreja dos Remédios pairava e desmanchava-se como uma nuvem sobre o pátio onde ela polia os anjos de pedra após extrair-lhes o limo e os carunchos acumulados na temporada de chuvas torrenciais. Ela interrompia as atividades, deixava de dar ordens a Anastácia e passava a contemplar o céu, pensando encontrar entre as nuvens aplastadas contra o fundo azulado e brilhante a caixa negra com uma tampa de cristal, os números dourados em algarismos romanos, os ponteiros superpostos e o pêndulo metálico. Isso foi tudo o que Hindié me contou a respeito do relógio e da permanência de minha mãe no convento de Ebrin, há mais de meio século. Sem largar o cabo do narguilé, abanando-se com um leque descomunal feito de fios trançados e enfeitados com penas de pássaros, ela só parava de matraquear para tomar fôlego e enxugar o suor do rosto com a ponta da saia, sem se importunar em mostrar a folhagem de panos transparentes que separava a pele do algodão florido da túnica que nunca tirava.

                       HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp.30 e 31

 

Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 1.

 

A)  A palavra “ela’ (linha 8) é o referente de “Emilie” (linha 6).

B)   No período “às mil vozes secretas das badaladas” (linhas 3 e 4), em relação à figura de linguagem, há hipérbole.

C)   No período “desmanchava-se como uma nuvem sobre o pátio” (linha 8) a palavra destacada é o elemento que estabelece a ideia de comparação.

D)  No período “E comparava a sucessão de sons às mil vozes secretas das badaladas de um sino” (linhas 3 e 4) o sinal gráfico da crase é facultativo, como ocorre no período “deixava de dar ordens a Anastácia” (linha 10).

E)   Da leitura do período “Ela falava de um som grave e harmônico que parecia vir de algum lugar situado entre o céu e a terra” (linhas 1 e 2), infere-se a ideia de sonoridade.

 


 


Questão 03

UDESC

Texto 1

Ela falava de um som grave e harmônico que parecia vir de algum lugar situado entre o céu e a terra para em seguida expandir-se na atmosfera como o calor da caridade que emana do Eterno e de seu Verbo. E comparava a sucessão de sons às mil vozes secretas das badaladas de um sino que acalmam as noites de agonia e despertam os fiéis para conduzi-los ao pé do altar, onde o arrependimento, a inocência e a infelicidade são evocados através do silêncio e da meditação. Talvez por isso Emilie parava de viver cada vez que o eco quase imperceptível das badaladas da igreja dos Remédios pairava e desmanchava-se como uma nuvem sobre o pátio onde ela polia os anjos de pedra após extrair-lhes o limo e os carunchos acumulados na temporada de chuvas torrenciais. Ela interrompia as atividades, deixava de dar ordens a Anastácia e passava a contemplar o céu, pensando encontrar entre as nuvens aplastadas contra o fundo azulado e brilhante a caixa negra com uma tampa de cristal, os números dourados em algarismos romanos, os ponteiros superpostos e o pêndulo metálico. Isso foi tudo o que Hindié me contou a respeito do relógio e da permanência de minha mãe no convento de Ebrin, há mais de meio século. Sem largar o cabo do narguilé, abanando-se com um leque descomunal feito de fios trançados e enfeitados com penas de pássaros, ela só parava de matraquear para tomar fôlego e enxugar o suor do rosto com a ponta da saia, sem se importunar em mostrar a folhagem de panos transparentes que separava a pele do algodão florido da túnica que nunca tirava.

                       HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp.30 e 31

 

Analise as proposições em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 1.

 

I. Da leitura do primeiro parágrafo, infere-se que, sutilmente, há uma referência à “hora do anjo” – momento de introspecção para Emilie.

 

II. Em “abanando-se com um leque descomunal feito de fios trançados e enfeitados com penas de pássaros” (linhas 16 e 17), em relação à colocação pronominal ocorre ênclise, como também no período “sem se importunar em mostrar a folhagem de panos transparentes” (linhas 18 e 19).

 

III. Na oração “ela polia os anjos de pedra” (linhas 8 e 9), se a expressão destacada for substituída pelo adjetivo pétreos, mantém-se o sentido e a coerência no texto.

 

IV. Na oração “que acalmam as noites de agonia” (linha 4), quanto à transitividade o verbo é transitivo direto e indireto, pois tem como complementos as noites – objeto direto e de agonia – objeto indireto

 

V. Da leitura do período “que parecia vir de algum lugar situado entre o céu e a terra” (linhas 1 e 2), infere-se a ideia de distanciamento.

 

Assinale a alternativa correta.

 

A)  Somente as afirmativas II e III são verdadeiras.

B)   Somente as afirmativas I, III e V são verdadeiras.

C)   Somente as afirmativas I, II e V são verdadeiras.

D)  Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras.

E)   Somente as afirmativas I, IV e V são verdadeiras

 



Questão 04

UDESC

Texto 1

Ela falava de um som grave e harmônico que parecia vir de algum lugar situado entre o céu e a terra para em seguida expandir-se na atmosfera como o calor da caridade que emana do Eterno e de seu Verbo. E comparava a sucessão de sons às mil vozes secretas das badaladas de um sino que acalmam as noites de agonia e despertam os fiéis para conduzi-los ao pé do altar, onde o arrependimento, a inocência e a infelicidade são evocados através do silêncio e da meditação. Talvez por isso Emilie parava de viver cada vez que o eco quase imperceptível das badaladas da igreja dos Remédios pairava e desmanchava-se como uma nuvem sobre o pátio onde ela polia os anjos de pedra após extrair-lhes o limo e os carunchos acumulados na temporada de chuvas torrenciais. Ela interrompia as atividades, deixava de dar ordens a Anastácia e passava a contemplar o céu, pensando encontrar entre as nuvens aplastadas contra o fundo azulado e brilhante a caixa negra com uma tampa de cristal, os números dourados em algarismos romanos, os ponteiros superpostos e o pêndulo metálico. Isso foi tudo o que Hindié me contou a respeito do relógio e da permanência de minha mãe no convento de Ebrin, há mais de meio século. Sem largar o cabo do narguilé, abanando-se com um leque descomunal feito de fios trançados e enfeitados com penas de pássaros, ela só parava de matraquear para tomar fôlego e enxugar o suor do rosto com a ponta da saia, sem se importunar em mostrar a folhagem de panos transparentes que separava a pele do algodão florido da túnica que nunca tirava.

                                        HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp.30 e 31

 

Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 1.

 

A)  Da leitura do período “Ela falava de um som grave e harmônico que parecia vir de algum lugar situado entre o céu e a terra para em seguida expandir-se na atmosfera como o calor da caridade que emana do Eterno e de seu Verbo” (linhas 1, 2 e 3), depreende-se um matiz religioso, acentuado pelo uso das letras maiúsculas em substantivos comuns no meio do período.

B)   Da leitura do período “Talvez por isso Emilie parava de viver cada vez que o eco quase imperceptível das badaladas da igreja dos Remédios pairava e desmanchava-se como uma nuvem sobre o pátio onde ela polia os anjos de pedra após extrair-lhes o limo e os carunchos acumulados na temporada de chuvas torrenciais” (linhas 6 a 10), depreende-se que Emilie retomava suas memórias em relação ao convento de Ebrin.

C)   Em “extrair-lhes o limo e os carunchos acumulados na temporada de chuvas torrenciais” (linhas 9 e 10) o pronome destacado pode ser substituído pelo pronome los, sem que ocorra prejuízo gramatical e de sentido no texto.

D)  Da leitura do segundo parágrafo, infere-se que a descrição da personagem Hindié vem reforçar a influência da cultura oriental na obra.

E)   A palavra “onde” (linha 8), morfologicamente, equivale a um pronome relativo, pois refere-se ao pátio, logo pode ser substituído pela expressão em que, sem que haja prejuízo na coerência e coesão.

 



Questão 05

TEXTO 1

 

1 – Emilie já está cordada? – perguntei.

– Dizem que tua avó há muito tempo não dorme; ela sonha dia e noite contigo, com teu irmão e com os peixes que vai comprar de manhãzinha no mercado; a essa hora já deve estar de volta para conversar com os animais.

5  A conversa com os animais, os sonhos de Emilie, o passeio ao mercado na hora que o sol revela tantos matizes do verde e ilumina a lâmina escura do rio. Na fala da mulher que permanecera diante de mim, havia uma parte da vida passada, um inferno de lembranças, um mundo paralisado à espera de movimento. Sim, com certeza Emilie já lhe havia contado algo 10 a nosso respeito. A mulher sabia que éramos irmãos e que Emilie nos havia adotado. Talvez já soubesse da existência dos quatro filhos de Emilie: Hakim e Samara Délia, que passaram a ser nossos tios, e os outros dois, inomináveis, filhos ferozes de Emilie, que tinham o demônio tatuado no corpo e uma língua de fogo.

15 Já eram quase sete horas quando resolvi sair de casa. Retirei do alforje o caderno, o gravador e as cartas que me enviaste da Espanha e coloquei tudo sobre uma mesinha de ônix, ao lado do desenho afixado na sala. Por distração ou hábito, deixei no pulso o relógio. Nunca imaginei que naquele dia iria consultá-lo mil vezes, muitas inutilmente, outras para que o tempo voasse ou desse um salto inesperado. Lá fora, a claridade ainda era tênue, e, ao olhar para a vegetação estática do jardim, a mulher opinou: “Só mais tarde é que vai chover”.

                               Hatoum, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 9.

 

 

 

Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 1.

 

A)  Em “Já eram quase sete horas” (linha 13) tem-se oração sem sujeito, pois o verbo destacado é impessoal.

B)   As palavras “tua” (linha 2) e “teu” (linha 3), na morfossintaxe, são pronomes possessivos e adjuntos adnominais.

C)   Da leitura do período “o sol revela tantos matizes do verde e ilumina a lâmina escura do rio” (linha 6) depreende-se que a narradora faz menção ao rio Negro, que é marcado na obra.

D)  A leitura da obra leva o leitor a inferir que o silêncio perpassa toda a obra, a exemplo, a personagem Emilie que guarda um segredo relacionado ao relógio, os dois filhos dela, a narradora sem nomes, e a neta, Soraia Ângela, que nasce muda.

E)   Nas orações “Emilie já lhe havia contado algo a nosso respeito” (linhas 8 e 9) e “as cartas que me enviaste da Espanha” (linha 14) os pronomes oblíquos estão proclíticos ao verbo, devido à antecedência dos pronomes relativos.

 



Questão 06

TEXTO 1

 

1 – Emilie já está cordada? – perguntei.

– Dizem que tua avó há muito tempo não dorme; ela sonha dia e noite contigo, com teu irmão e com os peixes que vai comprar de manhãzinha no mercado; a essa hora já deve estar de volta para conversar com os animais.

5  A conversa com os animais, os sonhos de Emilie, o passeio ao mercado na hora que o sol revela tantos matizes do verde e ilumina a lâmina escura do rio. Na fala da mulher que permanecera diante de mim, havia uma parte da vida passada, um inferno de lembranças, um mundo paralisado à espera de movimento. Sim, com certeza Emilie já lhe havia contado algo 10 a nosso respeito. A mulher sabia que éramos irmãos e que Emilie nos havia adotado. Talvez já soubesse da existência dos quatro filhos de Emilie: Hakim e Samara Délia, que passaram a ser nossos tios, e os outros dois, inomináveis, filhos ferozes de Emilie, que tinham o demônio tatuado no corpo e uma língua de fogo.

15 Já eram quase sete horas quando resolvi sair de casa. Retirei do alforje o caderno, o gravador e as cartas que me enviaste da Espanha e coloquei tudo sobre uma mesinha de ônix, ao lado do desenho afixado na sala. Por distração ou hábito, deixei no pulso o relógio. Nunca imaginei que naquele dia iria consultá-lo mil vezes, muitas inutilmente, outras para que o tempo voasse ou desse um salto inesperado. Lá fora, a claridade ainda era tênue, e, ao olhar para a vegetação estática do jardim, a mulher opinou: “Só mais tarde é que vai chover”.

                               Hatoum, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 9.

 

 

Analise as proposições em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 1.

 

I. No período “outras para que o tempo voasse ou desse um salto inesperado” (linha 17) há a figura de linguagem prosopopeia.

 

II. Em “‘ mais tarde é que vai chover’ ” (linha 19) a palavra destacada é, morfologicamente, advérbio e pode ser substituída por apenas, sem prejuízo à correção gramatical e ao sentido, no texto.

 

III. A leitura do segundo parágrafo leva o leitor a inferir que as atitudes de Emilie trazem resquícios que fogem ao padrão de normalidade, reforçados pelas expressões: “há muito tempo não dorme” (linha 2), “sonha dia e noite contigo” (linha 2) e “já deve estar de volta para conversar com os animais” (linhas 3 e 4).

 

IV. Em relação ao período “e os outros dois, inomináveis, filhos ferozes de Emilie, que tinham o demônio tatuado no corpo e uma língua de fogo” (linhas 11 e 12), o final da obra revela que a revolta deles era devido aos seus nomes serem de origem árabe, o que causava estranheza no lugarejo em que moravam, pois recebiam muitos codinomes.

 

V. Da leitura da obra, infere-se que o suicídio de Hakim, segundo o relato do fotógrafo Doner, foi devido a uma paixão que tivera em Marselha, sendo forçado a deixá-la, para vir para o Brasil com a família.

 

Assinale a alternativa correta.

 

A)  Somente as afirmativas I, IV e V são verdadeiras.

B)   Somente as afirmativas II e III são verdadeiras.

C)   Somente as afirmativas I, III e V são verdadeiras.

D)  Somente as afirmativas I, II e III são verdadeiras.

E)   Somente as afirmativas II, IV e V são verdadeiras.

 



Questão 07

TEXTO 1

 

1 – Emilie já está cordada? – perguntei.

– Dizem que tua avó há muito tempo não dorme; ela sonha dia e noite contigo, com teu irmão e com os peixes que vai comprar de manhãzinha no mercado; a essa hora já deve estar de volta para conversar com os animais.

5  A conversa com os animais, os sonhos de Emilie, o passeio ao mercado na hora que o sol revela tantos matizes do verde e ilumina a lâmina escura do rio. Na fala da mulher que permanecera diante de mim, havia uma parte da vida passada, um inferno de lembranças, um mundo paralisado à espera de movimento. Sim, com certeza Emilie já lhe havia contado algo 10 a nosso respeito. A mulher sabia que éramos irmãos e que Emilie nos havia adotado. Talvez já soubesse da existência dos quatro filhos de Emilie: Hakim e Samara Délia, que passaram a ser nossos tios, e os outros dois, inomináveis, filhos ferozes de Emilie, que tinham o demônio tatuado no corpo e uma língua de fogo.

15 Já eram quase sete horas quando resolvi sair de casa. Retirei do alforje o caderno, o gravador e as cartas que me enviaste da Espanha e coloquei tudo sobre uma mesinha de ônix, ao lado do desenho afixado na sala. Por distração ou hábito, deixei no pulso o relógio. Nunca imaginei que naquele dia iria consultá-lo mil vezes, muitas inutilmente, outras para que o tempo voasse ou desse um salto inesperado. Lá fora, a claridade ainda era tênue, e, ao olhar para a vegetação estática do jardim, a mulher opinou: “Só mais tarde é que vai chover”.

                               Hatoum, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 9.

 

 

Analise as proposições em relação à obra Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum, e ao Texto 1, e assinale (V) para verdadeira e (F) para falsa.

 

( ) O sinal gráfico da crase no período “um mundo paralisado à espera de movimento” (linha 8) é opcional, devido ao sentido da palavra espera.

( ) A palavra “que” (linha 11) é o referencial anafórico de “filhos de Emilie” (linha 10).

( ) Infere-se da leitura da obra que ela é composta por narrativas memorialísticas, em que a lembrança é o fio condutor de um emaranhado de conflitos, fatos e imagens que são apresentados por uma narradora que vive de lembranças – Emilie.

( ) Da leitura do período “Na fala da mulher que permanecera diante de mim, havia uma parte da vida passada, um inferno de lembranças, um mundo paralisado à espera de movimento” (linhas 6, 7 e 8), depreende-se que a memória representa a incessante tentativa de resgate pelo passado e pela história da família.

( ) Da leitura da obra, depreende-se que a narrativa é mesclada por um multiculturalismo - tradições culturais, raciais, culinárias e símbolos – o que tendencia o leitor a refletir acerca das diferenças.

 

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta, de cima para baixo.

 

A)  F – V – F– V – V

B)   V – V – F– F – V

C)   V – F – V– V – V

D)  F – F – V– V – F

E)   F – V – F– V – F

 



 

Questão 08

(Ufsm) Assinale verdadeira (V) ou falsa (F) em cada uma das afirmativas relacionadas a "Relato de um certo oriente" de Milton Hatoum.

 

(    ) Relata a volta de uma mulher à cidade de sua infância, após longa ausência, num diálogo com o irmão distante.

(    ) A narrativa produz uma verdadeira viagem evocativa, traçada com senso plástico e pendor lírico.

(    ) A voz da narradora leva ao passado, incorporando outras vozes que revelam múltiplas faces das personagens evocadas.

(    ) A viagem da narradora recupera, sobretudo, o período em que seus antepassados dedicam-se à extração da borracha.

 

A sequência correta é

 

a) F - V - F - V.  

b) F - F - V - F.  

c) V - V - F - V.  

d) V - F - V - F.  

e) V - V - V - F. 

 



Questão 09

 

TEXTO

“Tu ainda engatinhavas naquele natal de 54 e Soraya Ângela era a minha companheira. Quase sempre choramingavas quando ela aparecia, querendo brincar contigo e te acariciar; é verdade que o olhar dela, de espanto, e os gestos bruscos eram de meter medo a qualquer um. [...].”

 

Considere o trecho acima e a totalidade da obra “Relato de um Certo Oriente” e analise as afirmativas abaixo:

 

01. A narradora, em uma carta ao irmão, refere-se a recordações da infância, ao lado de Soraya Ângela, filha de Samara Délia.

 

02. Soraya Ângela era portadora da Trissomia 21, motivo da repulsa de Emilie pela menina.

 

04. A narradora recorda o dia em que Soraya aprendeu a escrever, rabiscando o nome de Emilie.

 

08. Há uma multiplicidade de vozes narrativas em “Relato de um Certo Oriente”, cabendo ao leitor, a partir da combinação entre elas, construir a identidade da narradora principal.

 

16. Emilie é a matriarca da família, uma muçulmana intolerante para com as diferenças religiosas e completamente inadaptada à sociedade manauara.

 

32. Hakim, marido de Emilie é o único que dirige a palavra à Samara Délia, hostilizada por todos a partir do momento em que engravidara.

 

A soma das afirmações verdadeiras é:

 

A)  15

B)   05

C)   13

D)  45

E)   12

 



Questão 10

 

Leia o fragmento abaixo do romance de Milton Hatoum, “Relato de um certo Oriente” e responda à questão

 

TEXTO

[...] por detrás dos troncos, da folhagem que lambia a terra, fingindo encontrá-la, aceitando absurdamente a hipótese de que ela teria ido ao pátio ver os animais, banhar-se na fonte, pular a cerca do galinheiro e gesticular furiosamente diante do poleiro para que, em pânico, as aves passassem do sono à debandada caótica, soltando as asas, ciscando a terra e o ar, debatendo-se, encurraladas entre a cerca instransponível e a figura lânguida que com seus excessos de contorções sequer as ameaçava; mas essa encenação matinal, presenciada com espanto e comiseração por todos nós, talvez fosse uma festa [...]

 

No enunciado “da folhagem que lambia a terra” o autor apresenta uma figura de linguagem, utilizada para dar mais literalidade ao romance. A figura empregada denomina-se,

 

a) pleonasmo.

b) metonímia.

c) eufemismo.

d) hipérbole.

e) personificação.

 

 


Questão 11

 

Leia o fragmento abaixo do romance de Milton Hatoum, “Relato de um certo Oriente” e responda à questão

 

TEXTO

[...] por detrás dos troncos, da folhagem que lambia a terra, fingindo encontrá-la, aceitando absurdamente a hipótese de que ela teria ido ao pátio ver os animais, banhar-se na fonte, pular a cerca do galinheiro e gesticular furiosamente diante do poleiro para que, em pânico, as aves passassem do sono à debandada caótica, soltando as asas, ciscando a terra e o ar, debatendo-se, encurraladas entre a cerca instransponível e a figura lânguida que com seus excessos de contorções sequer as ameaçava; mas essa encenação matinal, presenciada com espanto e comiseração por todos nós, talvez fosse uma festa [...]

 

A personagem que leva à debandada as aves do galinheiro porque gesticula furiosamente, é

 

a) Emilie.

b) Anastácia Socorro.

c) Samara Délia.

d) Soraya Ângela.

e) Hindié.

 


Questão 12

 

Quando abri os olhos, vi o vulto de uma mulher e o de uma criança. As duas figuras estavam inertes diante de mim, e a claridade indecisa da manhã nublada devolvia os dois corpos ao sono e ao cansaço de uma noite mal dormida. Sem perceber, tinha me afastado do lugar escolhido para dormir e ingressado numa espécie de gruta vegetal, entre o globo de luz e o caramanchão que dá acesso aos fundos da casa. Deitada na grama, com o corpo encolhido por causa do sereno, sentia na pele a roupa úmida e tinha as mãos repousadas nas páginas também úmidas de um caderno aberto, onde rabiscara, meio sonolenta, algumas impressões do voo noturno. Lembro que adormecera observando o perfil da casa fechada e quase deserta, tentando visualizar os dois leões de pedra entre as mangueiras perfiladas no outro lado da rua.

 

                 HATOUM, M. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. (Fragmento)

 

Ao final da década de 80, o amazonense Milton Hatoum surpreende o mundo das letras com a excelência de seu romance de estreia, Relato de um certo Oriente, hoje traduzido para várias línguas. Abaixo, encontram-se trechos de críticos e teóricos literários, relacionados à obra em questão ou à narrativa em geral. Leia com atenção o Texto acima e selecione, abaixo, a alternativa que pode ser corretamente associada a esse fragmento, no que concerne à narrativa:

 

 

 

 

A)  As complicações da narrativa são ainda mais intensificadas pelo encaixe de histórias dentro de outras histórias, de modo que o ato de contar uma história se torna um acontecimento na história [...] (CULLER, J. Teoria literária. uma introdução. São Paulo: Beca Produções Culturais Ltda., 1999)

B)   Faz-se presente [...] uma linguagem que revela vacilos, titubeios, uma vez que a narradora expõe sua dúvida na forma de organizar as vozes do passado. (CHIARELLI, S. Vidas em trânsito; as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum. São Paulo: Annablume, 2007).

C)   No caso do “eu” como testemunha, o ângulo de visão é, necessariamente, mais limitado. [...] ele narra da periferia dos acontecimentos, não consegue saber o que se passa na cabeça dos outros, apenas pode inferir, lançar hipóteses, servindo-se também de informações, de coisas que viu ou ouviu [...] (LEITE, L. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 2000)

D)  [...] É possível que o reconhecimento de certas manifestações culturais como sendo ou não literatura só seja possível quando o aparato crítico da teoria da literatura bem como os procedimentos e valores da crítica se tenham refinado o suficiente para uma (ainda que tênue) percepção da alteridade. (LAJOLO, M. Regionalismo e história da literatura: quem é o vilão da história?. In: FREITAS, M. (org.) Historiografia brasileira em perspectiva. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2007)

E)   Essa concepção empenhada, quem sabe devida às circunstâncias da sua vida, nos leva a perguntar de que maneira as suas convicções e sentimentos se projetam na visão do homem e da sociedade, e em que medida afetam o teor da sua realização como escritor. [...]. (CANDIDO, A. A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989)

 

 



Questão 13

 

(UFPR 2021) Assinale a alternativa correta em relação a Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum.

 

A)  A narração do atropelamento da menina Soraya exemplifica o registro predominante ao longo de todo o romance: relatos de memórias, apresentados em linguagem poética, contendo lacunas que impedem saber exatamente o que aconteceu.

B)   A leitura em conjunto dos vários depoimentos que compõem a obra esclarece detalhes desconhecidos de um ou outro narrador, desfazendo, assim, os mistérios relativos ao passado da família de libaneses cuja matriarca, Emilie, teve morte trágica.

C)   A obra é representativa da literatura regionalista de cunho social por ter como tema a desagregação de uma família de imigrantes libaneses motivada pelo prejuízo econômico que tiveram em suas atividades comerciais; assim como Manaus, eles não resistiram ao declínio causado pelo fim do ciclo da borracha.

D)  Alguns descendentes de Emilie foram excluídos do convívio familiar por adotarem atitudes rebeldes, motivadas por diferenças religiosas: uns optaram pela religião muçulmana do pai, enquanto outros adotaram o cristianismo da matriarca.

E)   O romance alterna a apresentação de espaços considerados exóticos, como a floresta amazônica e a Cidade Flutuante, com cenas que se passam em paisagens urbanas europeias, nas cidades onde a narradora principal e seu irmão biológico moraram.



Materiais complementares