Análise da obra O BEM AMADO - Dias Gomes

Exercícios

Questão 01


    Leia o fragmento abaixo, retirado do livro “O Bem Amado”, de Dias Gomes:


ODORICO – O mal desta terra é que todo mundo é bom, pacato. Esse pacatismo é a nossa desgraça. Talvez seja a água... ou o azeite-de-dendê... deve ter alguma substância calmante, sei lá. O fato é que ninguém mata, ninguém morre e nós estamos aqui há mais de um ano esperando um defunto para inaugurar o cemitério.

(...)

ODORICO – Agora, sim. Vamos resolver o nosso problema. Temos o homem de que precisamos.

DOROTÉA – Que homem?

ODORICO – O homem que vai dar a esta cidade o que está faltando a ela. Eu já estava cansado de esperar pela morte do primo Ernesto. Decidi por em prática um outro plano, para o caso desse falhar.

DULCINÉA – Será que o senhor mandou buscar outro doente?

ODORICO – Nada disso. Nem doente, nem defunto. O que mandei buscar foi um fazedor de defuntos.


A)  Explique, com base no enredo, o que Dulcinéa quis dizer com a frase: ...o senhor mandou buscar outro doente?


B)   Quem é o homem a quem Odorico se refere como fazedor de defuntos? Como esse homem irá promover, finalmente, a inauguração do cemitério da cidade?




Questão 02


Fuvest-2009

Leia a seguinte fala, extraída de uma peça teatral, e responda ao que se pede.

 

Odorico — Povo sucupirano! Agoramente já investido no cargo de Prefeito, aqui estou para receber a confirmação, ratificação, a autenticação e, por que não dizer, a sagração do povo que me elegeu.

                                                             Dias Gomes. O Bem-Amado: farsa sócio-político-patológica em 9 quadros.


a)    A linguagem utilizada por Odorico produz efeitos humorísticos. Aponte um exemplo que comprove essa afirmação. Justifique sua escolha.

 

b)    O que leva Odorico a empregar a expressão “por que não dizer”, para introduzir o substantivo “sagração”?




Questão 03

A síndrome de Odorico Paraguaçu, imortal criação de Dias Gomes em “O Bem-Amado” (1973), voltou a contagiar Brasília. O neologismo reapareceu na boca de políticos durante os dias mais tensos que cercaram a novela da CPI da corrupção. Falou-se muito pelos corredores do poder em “coesionar” a base sem jamais perder o “bocão”. (...)

“Neologismos enriquecem a língua, mas, no caso, estão enriquecendo pessoas”, diz sobre o “bocão” o líder do PDT, Miro Teixeira (RJ). Em vez de “coesionar”, ele propõe “coisionar”: “transformar votos em coisas”. Já Delfim Neto (PPB-SP), apesar de dizer que o “bocão” está mais para “garganta profunda”, acha “coesionar” um “verbo muito interessante, que só enriquece o vernáculo”.

“Embora efêmeros, os neologismos são muito úteis, porque representam uma cultura”, diz Delfim. “A oposição reclama porque desejaria o apoio do governo na CPI, o que é um oxímoro”, afirma, recorrendo a um preciosismo – oxímoro é uma figura de retórica que reúne, no mesmo conceito, palavras de sentido contraditório. José Genoíno (PT-SP) não entra na brincadeira. “Isso é coisa de um universo fechado, uma criação verbal de um mundo à parte, uma redoma onde os políticos estão afastados do povo”, diz. “E ‘bocão’ é de um mau gosto horrível”.

Sim, há bom e mau gosto, mas ninguém é dono da língua”, diz o professor de Lingüística Aplicada da Unicamp John Robert Schmitz. “Se Guimarães Rosa criava neologismos, todo mundo pode criar. Nada contra o verbo ‘coesionar’”, diz. O lingüista, porém, diz que o verbo poderia ser substituído facilmente por “unificar”, sem perda de seu significado. “Unificar existe no dicionário e quer dizer “fazer convergir para um só fim”, perfeito para o caso. “Bocão” tampouco aparece nos compêndios da língua. Mas, entre suas mais de 20 acepções para a palavra “boca”, da qual o neologismo seria aumentativo, o dicionário Aurélio traz essa: “garganta que dá acesso a um planalto”. Faz todo sentido.

(Cynara Menezes, Folha de S. Paulo, 1° abr. 2001, A-8.)


      A partir das informações do texto, a expressão “‘coesionar’ a base sem jamais perder o ‘bocão’” tem o mesmo sentido que:


a) fazer a base convergir para um mesmo objetivo, sem que os parlamentares deixem de manifestar suas opiniões.

b) manter a base unida para conseguir bons resultados nas votações.

c) pressionar a base para obter benefícios do executivo.

d) unificar a base sem abrir mão das vantagens concedidas pelo governo.

e) manter a base isolada das pressões populares, sem deixar de pressionar o governo. 


Questão 04


    Leia com atenção o fragmento abaixo, retirado da obra “O Bem Amado” de Dias Gomes e assinale a afirmação correta:

NECO – Odorico Paraguaçu, aqui estamos para o último adeus a ti que foste um exemplo para todos nós. Exemplo de probidade e caráter, de perseverança e lealdade, de justiça e amor ao próximo. Só tu, Odorico, mais ninguém, podias merecer a subida honra de inaugurar este campo-santo, que foi a grande obra do seu governo, o grande sonho de sua vida, afinal realizado! Adeus, Odorico, o Grande, o Pacificador, o Desbravador, o Honesto, o Bravo, o Leal, o Magnífico, o Bem-Amado...

A)  O fragmento mostra o momento em que Odorico Paraguaçu finalmente consegue inaugurar o seu cemitério com o cadáver de Dulcinéa. Isso fica claro na sequência: “Só Tu, Odorico, mais ninguém, podia merecer a subida honra de inaugurar este campo-santo”

B)   Para a construção do cemitério, promessa de campanha, Odorico desviou verbas de outras obras da prefeitura, mas preservou as verbas para serviços essenciais como saúde e educação.

C)   A grande ironia da narrativa é que a inauguração do cemitério se deu com a morte de Odorico Paraguaçu, assassinado por Dirceu Borboleta após este descobrir que Odorico era amante de sua esposa Dulcinéa.

D)  As palavras elogiosas de Neco Pedreira, que sempre fizera oposição a Odorico, revelam, mais uma vez, a hipocrisia e falsidade que predominam nas relações sócio-políticas, definidas pelo próprio autor no prólogo da obra como sendo “patológicas”

E)   Neco Pedreira, ao definir a construção do cemitério como “a grande obra” do governo de Odorico, confirma que as críticas que fazia ao prefeito em sua gazeta eram apenas uma forma de manter Odorico sempre em destaque, objetivando elevar seu prestígio político para futuras eleições.


Questão 05

Unicamp-2018

“ODORICO

Eu sei. É um movimento subversivo procurando me intrigar com a opinião pública e criar problemas à minha administração. Sei, sim. É uma conspiração. Eles não queriam o cemitério. Desde o princípio foram contra. E agora que o cemitério está pronto caem de pau em cima de mim, me chamam de demagogo, de tudo..”

(...)

“ODORICO

Pois eu quero que depois o senhor soletre esta gazeta de ponta a ponta. Neco Pedreira o senhor conhece?

ZECA

Conheço não sinhô.

ODORICO

É o dono do jornal. Elemento perigoso. Sua primeira missão como delegado é dar uma batida na redação dessa gazeta subversiva e sacudir a marreta em nome da lei e da democracia...”

(Dias Gomes, O bem amado. 12.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014, p. 40 e 68.)

A peça de Dias Gomes é uma crítica a um momento histórico e político da sociedade brasileira. Odorico Paraguassu tornou-se um personagem emblemático desse período porque por meio dele 

A)   simbolizou-se a defesa da democracia a qualquer custo. Essa defesa resultou em uma sociedade cindida entre o respeito à lei e o seu uso particular, temas políticos comuns aos países latino-americanos nos anos de 1970. 

B)    representaram-se o atropelo da lei constitucional, a relativização da liberdade de imprensa e a construção de um inimigo interno que justificasse o arbítrio das decisões do executivo, próprios aos Anos de Chumbo. 

C)    explicitaram-se as leis que regiam a vida política e social de uma nação subdesenvolvida da América Latina na década de 1970, marcada pela inércia e pela cumplicidade dos cidadãos com a corrupção sistêmica do país. 

D)   fez-se a defesa da democracia e do respeito irrestrito à lei constitucional para um projeto de nação brasileira da década 1970, que enfrentava o espírito demagógico dos políticos latino-americanos.


Questão 06

Unicamp-2019


“DOROTÉA O senhor perdeu a cabeça?

DULCINÉA Fazer de um cangaceiro um delegado!

DOROTÉA Quando a oposição souber!

DULCINÉA Que prato pra Neco Pedreira!

ODORICO E tomara que Neco se sirva bem dele. Tomara que chame Zeca Diabo de cangaceiro, assassino, quanto mais xingar, melhor.

DOROTÉA O senhor não acha que se excedeu?

ODORICO Em política, dona Dorotéa, os finalmentes justificam os não obstantes.”

                                                (Dias Gomes, O bem-amado. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014. p. 69-70.)


As personagens femininas do excerto anterior discordam da nomeação de Zeca Diabo feita por Odorico. Assinale a alternativa que indica a razão dessa discordância e a natureza da crítica às práticas políticas brasileiras presente na peça teatral de Dias Gomes.


A)  Segundo as personagens, Zeca Diabo não possui os atributos necessários para o cargo. Critica-se uma sociedade que desconsidera a meritocracia.

B)   As práticas políticas são desconhecidas pelas personagens. A ingenuidade do cidadão e a astúcia necessária dos políticos são criticadas na fala delas e de Odorico.

C)   Dulcinéa e Dorotéa não simpatizam com Zeca Diabo, o que indica que a peça faz uma crítica às relações sociais presididas por afetos e interesses privados.

D)  Dulcinéa e Dorotéa não admitem que alguém fora da lei possa cuidar da ordem da cidade. Criticam-se os atos de um poder executivo que se orienta por um projeto pessoal de poder.





Questão 07

Unicamp 2020

“Para inaugurar é preciso ter um defunto. Mas, por desgraça, nenhum turista se afoga, nenhuma calamidade se abate sobre a cidade e os moribundos têm o desplante de ressuscitarem. Na ordem estabelecida por Odorico, o bem vira mal e o mal, bem.”

(Anatol Rosenfeld, “A obra de Dias Gomes”, em Teatro de Dias Gomes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. xxvii.)


A comicidade de O Bem-amado, de Dias Gomes, deriva em grande medida da inversão de valores que a peça encena. Considerando os propósitos satíricos da obra, assinale a alternativa que evidencia tal inversão.


a) A destinação de recursos para a construção de um cemitério público confere dignidade aos mortos.

b) A hospitalidade dada aos doentes ilustra o uso do orçamento em prol do sistema público de saúde.

c) A promoção do pistoleiro a delegado de polícia visa à reinserção social do criminoso.

d) A inauguração do cemitério dá oportunidade a que se reverencie a memória do benfeitor da cidade.





Materiais complementares